Conceitos e Normas Editoriais

A qualidade da mensagem

No processo de comunicação, há dois sérios problemas a evitar:

  •     A perda de informação.
  •     A distorção da informação.

Tais problemas podem ocorrer por vários motivos, como codificação¹Codificação é o processo por meio do qual expressamos idéias na forma de um texto escrito, um discurso oral ou outro código de comunicação. Decodificação é o processo inverso, ou seja, apreensão das idéias que um interlocutor pretende nos transmitir por meio de uma mensagem oral, escrita ou por outro código. ou decodificação inadequadas, deficiência do meio utilizado, interferências várias, experiências divergentes entre os interlocutores e outros.

Para acompanhar o raciocínio aqui desenvolvido, tome-se o modelo apresentado na Figura 1, que esquematiza uma situação de diálogo entre pesquisadores, técnicos e seus diversos públicos.

#pracegover Modelo do processo de comunicação entre pesquisadores, técnicos e seus diversos públicos.

Figura 1. Modelo do processo de comunicação entre pesquisadores, técnicos e seus diversos públicos.

A questão expressa no modelo é que as mensagens devem ser elaboradas tendo em conta o chamado "espaço epistêmico comum", ou seja, aqueles conhecimentos simbólicos de vocabulário e outros símbolos, inclusive os códigos não verbais, ainda que convencionais, como figuras (por ex.: veneno, corrosivo, proibido agir desta ou daquela forma) e código de cores, como os que indicam o grau de toxicidade de pesticidas.

Quando as pessoas utilizam o mesmo código linguístico, fazem uso de um universo de palavras que são conhecidas por todos, porém existem o vocabulário erudito, que somente é conhecido por pessoas com elevado nível de instrução, e os vocabulários especializados de diversas profissões, que somente são do domínio dos integrantes desses grupos. É o caso do vocabulário profissional dos engenheiros-agrônomos, dos biólogos, dos médicos e de tantos outros, com suas palavras especializadas, gráficos, figuras, diagramas, símbolos técnicos, como unidades de medida, etc. Aqui entra, também, a questão do estilo de quem escreve ou fala, envolvendo a complexidade do vocabulário e a estrutura gramatical do discurso. Além disso, estão incluídos nesse espaço os níveis de complexidade e abstração conceitual, capazes de ser processados mentalmente pelos interlocutores.

Ao tratar com produtores rurais de baixa renda e instrução elementar ou até com pessoas leigas, é mais seguro utilizar uma linguagem simplificada léxica, gramatical e conceitualmente, evitando conceitos e vocabulário sofisticados bem como símbolos técnicos. Falar ou escrever de maneira simples e clara é atributo do bom comunicador. Questões elementares como o uso de unidades de medida na formulação de adubos e inseticidas podem representar importante barreira à comunicação. Considere-se, por exemplo, uma recomendação de dosagem em mililitros ou centímetros cúbicos.

É preciso ter em mente que o pequeno agricultor não possui, geralmente, recursos para medir quantidades desse tipo. Além disso, ele desconhece o significado das abreviaturas usadas pelos técnicos (mL ou cm³). Entre pequenos agricultores e, às vezes, até entre médios agricultores, é comum a predominância de expressões regionais no vocabulário agrícola, em geral, e no emprego de unidades de medida em especial, as quais muitas vezes são tradicionais e cujo uso é garantido graças à existência de instrumentos de medida adequados, como vara, braça, alqueire, mão, carro, etc.

O uso de uma linguagem rebuscada ou desnecessariamente redundante também pode dificultar a comunicação, como, por exemplo, dizer:

"Se uma grande acumulação de líquido encontra-se presente nos canos, o compressor pode ser prejudicado."

Quando bastaria informar:

"Muito líquido nos tubos pode estragar o compressor."

A falta de consciência sobre esse tipo de problema reduz a eficiência do processo de comunicação, ocasionando distorções ou perdas de informação na transmissão das mensagens. Por exemplo, determinada publicação recomenda que a aplicação de pesticidas não seja feita após a "antese". Extensionistas consultados não conheciam essa palavra, que significa "abertura das flores". Assim, ao se dirigir a um público não técnico, por que preferir "condições edafoclimáticas" a "condições de clima e solo", ou "sistema radicular" a "raízes", ou ainda "regime pluvial" no lugar de "regime de chuvas"?

A construção de uma mensagem inteligível para o público a que se destina é responsabilidade de quem a emite – o pesquisador, o extensionista e outros profissionais de assistência técnica –, nas situações expressas neste documento. Para garantir adequada reconstrução das ideias de um interlocutor na mente de outro, são necessários ciclos reiterados de transmissão-resposta, nos quais vão sendo preenchidas as lacunas e retificadas as distorções. É por isso que, quando a comunicação se dá sem a intermediação de qualquer mídia, a probabilidade de um bom entendimento é maior.

Apesar do grande avanço dos meios digitais de comunicação, particularmente da internet, as publicações impressas ainda representam a principal forma de levar a tecnologia e as demais informações resultantes do processo de P&D até os usuários.

No processo de elaboração do conteúdo dessas publicações, deve-se estar atento aos problemas decorrentes da diversidade cultural dos diferentes tipos de público e da consequente capacidade de decodificação e interpretação dos textos.

O público de destino das informações divulgadas pelas Unidades de P&D caracteriza-se por níveis de instrução e de conhecimentos específicos diferenciados. Com base nos níveis de densidade e homogeneidade da instrução e do conhecimento específico, pode-se agrupar esse público em três categorias principais para fins de produção da informação em linguagem adequada a cada um desses níveis: 1) pesquisadores, docentes, estudantes e profissionais; 2) produtores de nível médio (de instrução e de conhecimentos específicos); 3) pequenos produtores e público em geral.

Em rigor, para cada categoria é necessário utilizar uma linguagem apropriada. Obviamente as mensagens preparadas com uma linguagem adequada para níveis mais baixos são inteligíveis aos níveis mais elevados.

Como a comunicação é o fenômeno humano mais óbvio, as pessoas tendem a ignorar o problema de interferência nesse processo (às vezes, chamada de ruído), que tão frequentemente causa distorções e bloqueios de comunicação, com consequências, às vezes, imprevisíveis.

Um estudo realizado nos Estados Unidos, onde a maioria dos agricultores tem escolaridade de segundo grau, demonstrou que grande parte deles não interpretava corretamente as instruções dos rótulos de pesticidas, não só por não entenderem as palavras técnicas utilizadas como por serem incapazes de fazer os cálculos para chegar à mistura com a dosagem recomendada por unidade de área. Outro estudo mostrou que muitos agricultores com o mesmo grau de escolaridade não interpretavam conceitos como nível de acidez e alcalinidade, além de desconhecer o significado do símbolo pH.

Deve-se ter em mente que, na comunicação oral ou escrita, usa-se um código verbal essencialmente simbólico e, portanto, sujeito à interpretação pessoal, que é subjetiva. Há um capítulo da teoria da comunicação que trata da questão da leiturabilidade²Trata-se de um neologismo derivado da palavra readability, que, em inglês, tem o significado indicado no texto. (às vezes chamada erroneamente de legibilidade). A leiturabilidade é definida como a ação e a interação de vários fatores do texto escrito que afetam o êxito do leitor em decodificá-lo. O êxito na leitura de um texto é definido como o grau com que o leitor consegue lê-lo a uma velocidade ótima, entendê-lo e interessar-se por ele. Os principais fatores responsáveis pela leiturabilidade de um texto são:

  • Complexidade do vocabulário – Medida pela porcentagem de vocábulos cujo significado o leitor desconhece.
  • Complexidade sintática – Construção de frases gramaticalmente complexas.
  • Densidade de ideias – Quantidade relativa de informações contidas em um trecho determinado do texto.
  • Fator de interesse humano – Grau com que o texto se refere a experiências humanas reais, medido pela quantidade de referências a pessoas e pelo uso de pronomes pessoais e possessivos. Esse fator é particularmente importante quando o público tem baixo grau de instrução (caso das cartilhas, por exemplo).

Em relação ao leitor, os fatores que mais afetam sua capacidade de leitura são a idade, o grau de instrução e o hábito de leitura.

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