Eliseu Roberto de Andrade Alves

 

A primeira impressão é a de um senhor turrão, resistente a entrevistas e que não tolera perguntas indiscretas. Avisa logo que não gosta de brincadeiras e só conversa sobre coisas sérias. Quinze minutos depois, desnuda-se um sorridente contador de histórias que viaja em cenas que vão da década de 70 a 2013 com a mesma intensidade e conhecimento. Aos 82 anos de idade, Eliseu Roberto de Andrade Alves, ou simplesmente Dr. Eliseu, é uma caixinha de surpresa que exige muita paciência para ser desvendada. A jovialidade não se restringe aos temas que aborda nem à ausência, em suas explanações, de chavões como “no meu tempo”... A roupa também expõe uma juventude de alma: calça de brim clara, camisa listrada em tons laranja e amarelo, tênis Lacoste preto. Frases de impacto com um humor sutil e inteligente expõem a genialidade e a lucidez de quem já faz parte da História da Agricultura Brasileira. Da História do Brasil.

A sala é simples, uma mesa de trabalho abarrotada de papéis, uma cadeira acompanhando-a, uma pequena mesa redonda com duas outras cadeiras e mais papéis e livros. Alguns com as páginas marcadas como se a leitura tivesse sido interrompida ou algo de muito importante merecesse destaque. A sala não tem comunicação com nenhum outro setor. É ele e apenas ele. Um local totalmente despojado de luxo. É pura simplicidade e praticidade. Nem de longe lembra que ali trabalha, diariamente, um homem que passou grande parte da sua vida à frente de grandes empresas, de grandes projetos. Além de presidir a Embrapa, ter sido seu diretor e hoje assessorar a Presidência da instituição, Eliseu Alves também foi presidente, de 1985 a 1990, da Codevasf (na época Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco).

É neste ambiente que Eliseu Alves começa a conversa meio arisco, reticente, como se estivesse estudando o interlocutor. Se o assunto envolve suas pesquisas, ele nem precisa ser estimulado, segue falando quase sem pausa. Didaticamente vai explicando, por exemplo, porque nos últimos 20 anos resolveu se dedicar a estudar a pobreza. Mas que fique bem claro, diz mais circunspecto, não é aquela pobreza sob o ponto de vista ideológico. Mas da Ciência. O que o move é entender, objetivamente, o que se pode fazer para mudar o cenário dos pobres. Como aconteceu com o Cerrado. Clima seco e solos arenosos e ácidos, e aparentemente inférteis, tornaram-se fecundos a partir dos estudos desenvolvidos, tecnologias utilizadas, o que só ratificou a sua crença no poder da Ciência. No Nordeste, Eliseu Alves novamente colocou em uso a sua fé pela transformação ao coordenar o programa de exportação de frutas desenvolvido pela Codevasf e fortalecer a região como um polo produtor. Impensável há algumas décadas.

O Dr. Eliseu, como respeitosamente todos o chamam, prossegue explicando, como se já tivesse feito isso inúmeras vezes, que antes de tudo é preciso entender que há dois tipos de fome. A que existe em países como o Brasil, que produz muito, mas não alimenta a todos pela persistente desigualdade na distribuição de renda, e a outra fome, como a que assola a maioria dos países africanos. Não escolhe palavras ao assegurar que a fome não é só de comida. Esses povos têm fome de governos que de fato invistam em agricultura, ciência e tecnologia, capacitem seus agricultores e pesquisadores. O Brasil já foi parecido com a África de hoje: crise na produção de alimentos, preços elevados. Um Brasil com filas nos supermercados, agitação social, mas uma vontade política de mudar... (Ruth Rendeiro, 2002). Leia mais.

 

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