Índice desta página:
• Introdução
• Sistemas de produção e fontes de dados para o Brasil
• Resultados InterPIG 2020
• Principais coeficientes técnicos e preços determinantes dos custos
• O impacto da taxa de câmbio
• Preço do suíno e lucro líquido da atividade
• Considerações finais

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Introdução (topo)

O objetivo deste texto é apresentar de forma comparada os custos de produção de suínos no ano de 2020 em dois estados brasileiros (Mato Grosso e Santa Catarina) e nos principais países concorrentes do Brasil no comércio internacional de carne suína (Estados Unidos, Espanha, Canadá, Alemanha, Dinamarca e Holanda), bem como uma média do conjunto de 17 países que compõem a rede InterPIG.

Os resultados para o ano de 2020 foram apresentados pelos representantes de cada país membro e debatidos no encontro da rede realizado em 2021. Nesta reunião foram discutidos os principais coeficientes técnicos, preços de mercado, taxas de câmbio e de juros, os custos de produção, bem como sua composição e variação em relação ao ano anterior.


Sistemas de produção e fontes de dados para o Brasil (topo)

As estimativas para o Brasil foram feitas para dois estados, Mato Grosso e Santa Catarina. No estado da região Centro Oeste, estimou-se o custo de produção de um sistema em ciclo completo (CC), no mercado independente, alojamento de 1.000 matrizes, com fábrica de ração e mão de obra contratada. No estado da região Sul, estimou-se o custo de produção de um sistema segregado em produção de leitões com creche (UPL) e terminação (UT), com contratos de integração, alojamento de 500 matrizes e 1.000 cabeças (espaços em terminação), respectivamente, sem fábrica de ração e mão de obra predominantemente familiar.

Os coeficientes técnicos para Santa Catarina foram obtidos em reunião técnica com a Cooperativa de Produção e Consumo Concórdia (Copérdia), realizada por vídeo chamada em 23/04/2021, bem como em Martins et. al. (2012) para consumo de energia elétrica, uso de mão de obra e vida útil e manutenção de instalações e equipamentos. Os coeficientes técnicos para Mato Grosso foram obtidos em reunião de painel com produtores independentes realizada em conjunto com a Associação dos Criadores de Suínos do Mato Grosso (Acrismat) e o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), em 14/02/2019 (Miele et al., 2019).

Para ambos os estados se utilizou estatísticas de desempenho das matrizes disponíveis no concurso Melhores da Suinocultura (Agriness, 2020). Os preços de mercado foram obtidos junto às fontes descritas no Tabela 1, sendo utilizados os preços médios anuais calculados a partir dos preços mensais nominais.


Resultados InterPIG 2020 (topo)

Em 2020, assim como em 2019, a suinocultura de Mato Grosso manteve a liderança em custos em relação aos demais países da rede InterPIG, seguida pela suinocultura dos Estados Unidos, de Santa Catarina e do Canadá, todos com custos abaixo de um dólar por kg vivo.

Entre os países europeus analisados, destacam-se Dinamarca e Espanha, com custos inferiores à média dos países da rede InterPIG, ao contrário do verificado na Holanda e na Alemanha. O custo de produção mato-grossense apresentou maior crescimento percentual entre 2019 e 2020 do que a maioria dos países analisados, o que reduziu sua vantagem em custos. Mesmo assim, os custos ficaram 5% inferiores aos custos nos Estados Unidos e 34% inferiores à média dos custos dos países da rede InterPIG.

O custo de produção catarinense manteve-se estável entre 2019 e 2020, ficando próximo ao custo dos Estados Unidos e 30% inferior aos custos médios da rede InterPIG. Em termos dos componentes do custo de produção, Mato Grosso liderava em 2020 em praticamente todos os itens, exceto no custo da alimentação, que era superior ao dos Estados Unidos, e nos outros custos variáveis, superiores aos verificados em Santa Catarina, que por sua vez, apresentava custos com alimentação superiores aos do Mato Grosso, Estados Unidos e Canadá, mas inferiores à média dos países da rede InterPIG.

Além disso, liderava nos outros custos variáveis e no item depreciação e capital. Apresentou ainda o segundo menor custo com a mão de obra (Tabela 2 e Figuras 1 e 2).


Principais coeficientes técnicos e preços determinantes dos custos (topo)

Assim como nos anos anteriores, os dois estados brasileiros analisados, Mato Grosso e Santa Catarina, ocupam uma posição intermediária em termos de produtividade das matrizes e mortalidade na creche. Porém, apresentam menor mortalidade das matrizes, de leitões até o desmame e na terminação (Tabela 3). Na Tabela 4 são apresentados os pesos de saída de cada fase de produção, bem como o ganho de peso diário em 2020.

Em relação ao preço da ração e seus ingredientes, principais determinantes dos custos e da competitividade na suinocultura, o ano de 2020 foi marcado pelo aumento expressivo nos preços em Reais do milho, do farelo de soja e da ração em Santa Catarina (+49,5%, +45,5% e +39,4%) e em Mato Grosso (+86,3%, +60,0% e +53,1%). Mesmo assim, tendo em vista a desvalorização do Real, o preço da ração no estado da região Centro Oeste foi 11% inferior à média dos países da rede InterPIG, enquanto que no estado da região Sul o preço da ração foi 4% superior a essa média, e também superior ao preço na Dinamarca e na Alemanha. Dos principais concorrentes do Brasil no mercado internacional, Estados Unidos e Canadá se destacam pelos menores preços da ração, 25% e 20% inferiores à média dos países da rede InterPIG, respectivamente, e a Dinamarca pelo menor preço entre os principais países europeus. Em relação ao ano de 2019, se destacam os aumentos nos preços da ração no Canadá e nos dois estados brasileiros desta análise, bem como a redução no preço da ração na Dinamarca (Tabela 5 e Figura 3). Na Tabela 5 também são apresentados o consumo de ração pelos reprodutores e a conversão alimentar padronizada dos 8 aos 120 kg por país.

Em relação à mão de obra, o Brasil apresenta baixa produtividade do fator trabalho. Porém, a remuneração da mão de obra é menor do que nos demais países da rede InterPIG, conferindo a Mato Grosso e Santa Catarina liderança neste custo. Chama a atenção os Estados Unidos e em menor medida a Espanha, que aliam alta produtividade com remuneração da mão de obra inferior à média dos países analisados. Por outro lado, Holanda e Dinamarca apresentam alta remuneração da mão de obra, porém não compensada pela maior produtividade deste fator de produção (Tabela 6 e Figura 4).

A depreciação e o custo de capital são relacionados ao investimento, a sua vida útil e à taxa de juros. Apesar do Brasil praticar maiores taxas de juros, verificam-se os menores custos com depreciação e capital devido, essencialmente, ao menor valor do investimento em instalações e equipamentos (Tabelas 2 e 7 e Figuras 1 e 5). Por sua vez, a vida útil de equipamentos e instalações utilizada para as estimativas da depreciação nos dois estados brasileiros é semelhante àquela utilizada pela maioria dos países da rede InterPIG. Portanto, tem pouca influência na comparação dos resultados dos custos fixos. Duas exceções chamam a atenção. De um lado, no Canadá utiliza-se uma vida útil menor, impactando para mais os custos de depreciação, enquanto que na Holanda ocorre o contrário, com maior vida útil impactando para menos os custos de depreciação (Tabela 7).


O impacto da taxa de câmbio (topo)

A desvalorização do Dólar dos Estados Unidos em relação ao Euro, à Coroa dinamarquesa e ao Dólar canadense, bem como a valorização desta última moeda em relação ao Euro, impactaram pouco a competitividade em custos dos Estados Unidos e do Canadá na comparação com os demais países. Excetua-se a essa constatação apenas o aumento do preço da ração no Canadá, fato que não alterou a posição de liderança em custos desses dois países verificada nos últimos anos. A Coroa dinamarquesa mantém uma cotação estável em relação ao Euro e também não influenciou na sua posição competitiva no conjunto dos países analisados (Tabelas 2, 5 e 8).

No Brasil, porém, o impacto da taxa de câmbio foi mais expressivo. A trajetória de desvalorização da moeda nacional dos últimos anos se intensificou em 2020, com o valor do Euro se elevando +33,6% e do Dólar +30,7%. Se por um lado essa desvalorização impactou de forma positiva na competitividade dos componentes dos custos não atrelados aos preços internacionais (sobretudo mão de obra, mas também outros custos variáveis, depreciação e capital), por outro ela impulsionou significativamente os preços internos dos ingredientes da ração que são transacionados no mercado internacional (tradeables). De fato, a desvalorização do Real não foi suficiente para compensar a perda de competitividade em função do encarecimento da ração no mercado interno, resultando em elevação dos preços também em Dólares, tanto em Santa Catarina quanto em Mato Grosso (Tabelas 2, 5 e 8).


Preço do suíno e lucro líquido da atividade (topo)

Os dois estados brasileiros e três dos demais seis países analisados apresentaram lucro líquido, ou seja, uma margem bruta superior ao custo com depreciação e capital. Os destaques foram a Dinamarca e a Espanha, com lucro líquido acima de USD 0,25 por kg vivo, representando 21% e 17% do preço do suíno, respectivamente. Em Mato Grosso, Santa Catarina e nos Estados Unidos foram estimados lucros líquidos entre USD 0,10 e 0,15 por kg vivo, representando de 10% a 15% do preço do suíno. Alemanha e Holanda, com os maiores custos de produção do grupo de países analisados, e o Canadá, com a menor cotação do suíno, apresentaram prejuízo, sendo que neste último pelo segundo ano consecutivo.

Os preços do suíno vivo se comportaram de forma distinta entre os países da rede InterPIG. Há certa estabilidade na cotação em Dólares em Santa Catarina, Mato Grosso e também na Espanha, altas expressivas na Dinamarca e, em menor medida, no Canadá e reduções significativas nos Estados Unidos, Holanda e Alemanha. Como os custos totais apresentaram variação positiva em Dólares, em praticamente todos os países da rede InterPIG, e em todos os países analisados, ocorreu uma redução no lucro líquido ou aumento no prejuízo líquido. A exceção é a Dinamarca, onde se verificou aumento do preço do suíno e redução do custo de produção (Tabela 9 e Figuras 1 e 6).


Considerações finais (topo)

Em 2020, a suinocultura foi afetada por duas crises sanitárias de proporções globais. O objetivo do presente texto não foi abordar esses impactos, mas é importante considerá-los como cenário na análise dos resultados apresentados. A Peste Suína Africana (PSA) direcionou as exportações para a China e pressionou para cima os preços da carne suína, do suíno vivo e dos ingredientes das rações, elevando os custos de produção ainda a partir de 2019, mas se estendendo para o ano seguinte. Por sua vez, a pandemia de covid-19 inicialmente gerou rupturas nas cadeias de suprimento e na disponibilidade de mão de obra em países como os Estados Unidos e a Alemanha no primeiro semestre de 2020 e, posteriormente, levou ao encarecimento logístico.

Mato Grosso e Estados Unidos mantêm em 2020 a liderança em custos em relação aos demais países da rede InterPIG, seguidos de Santa Catarina e do Canadá. Dentre os países europeus concorrentes do Brasil no comércio internacional, destacam-se Dinamarca e Espanha, com custos inferiores à média dos países da rede InterPIG, enquanto que Holanda e Alemanha apresentam custos superiores a essa média. O preço da ração foi o principal fator determinante para a competitividade dos dois países norte-americanos e para o estado de Mato Grosso. Por sua vez, a suinocultura de Santa Catarina enfrentou preços da ração superiores ao preço médio da ração dos países da rede InterPIG, ao contrário do que se observou em 2019, porém em parte compensados por um bom desempenho zootécnico.

Tanto a suinocultura mato-grossense quanto a catarinense se destacam nos demais componentes do custo, sobretudo pelo menor valor da mão de obra e dos investimentos. A significativa desvalorização do Real frente ao Dólar e ao Euro ampliou a competitividade dos dois estados brasileiros nos componentes dos custos de produção que não têm ligação direta com o comércio internacional de commodities (outros custos variáveis, mão de obra, depreciação e capital). Entretanto, não foi suficiente para neutralizar os aumentos nos preços no mercado interno, em Reais, do milho e do farelo de soja, sobretudo no estado do Centro-Oeste, implicando em perda de competitividade brasileira.

Em termos de resultado da atividade suinícola em 2020, os dois estados brasileiros, assim como a maioria dos países que compõem a rede InterPIG, apresentaram lucros líquidos positivos, porém decrescentes em relação a 2019. Este fato deveu-se ao aumento do preço do suíno ter sido inferior ao aumento dos custos de produção. A Dinamarca foi o único país que ampliou o lucro líquido da atividade.