Tendências em avicultura

A cadeia produtiva de aves no Brasil é bastante diversificada e complexa. Composta por diversas empresas distribuídas nos setores de produção, industrialização e comercialização. As pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Suínos e Aves estão mais fortemente direcionadas ao setor de produção, onde se encontram as empresas de genética, nutrição, sanidade, equipamentos e as agroindústrias.

Dessa forma, as tendências identificadas pelo corpo técnico científico da Unidade estão relacionadas a estes setores.

 

Considerando as crescentes exigências tanto do mercado mundial quanto dos consumidores, as pesquisas em sanidade avícola estarão fortemente voltadas para novas técnicas e tecnologias de detecção rápida de patógenos emergentes e exóticos de alto risco para a saúde humana e animal. Ainda nessa linha, percebe-se a necessidade de desenvolver ferramentas e medidas para minimizar eventuais riscos causados pelo consumo de produtos de origem animal.

Como tem se observado em alguns países, principalmente europeus, a tendência de suspensão do uso de antibióticos na criação de aves, crescerá a necessidade de antecipar a detecção de possíveis problemas causados pela produção animal sem uso de antibióticos e resistência antimicrobiana. Nesse sentido, novas técnicas de entrega de nutrientes e medicamentos por meio de nanotecnologia (transferência de anticorpos-aves) mostram-se áreas promissoras de pesquisa.

A Biossegurança em sistemas de produção familiar e pequena escala também será um fator importante para prevenir os riscos inerentes à produção intensiva, assim como estudos sobre a microbiota e o controle da coccidiose continuarão a preocupar os pesquisadores e produtores de aves.

 

As áreas de genética e genômica seguirão ganhando importância na área de pesquisa científica. Observa-se uma clara tendência em pesquisas que resultem em animais geneticamente melhorados, com o uso de edição gênica para melhorar a produção. Visando minimizar a forte dependência estrangeira na área de genética de aves, haverá uma alta demanda de pesquisa para apoiar os programas nacionais de melhoramento genético de aves. Assim, as melhorias das tecnologias de criopreservação de material genético de aves serão um fator de destaque.

Há crescente preocupação dos consumidores com o bem estar e doenças metabólicas na produção animal pressionando o setor de genética a selecionar aves e suínos mais equilibrados fisiologicamente. Essa preocupação resultará na demanda de genética de aves para produtos diferenciados, como os orgânicos, coloniais, alternativos, nutracêuticos e enriquecidos, voltados a atender um mercado crescente de alto valor agregado. Há também forte percepção sobre a necessidade de ajustes na genética para melhoria da qualidade da carne para a produção industrial e, principalmente, para o consumo in natura, assim como nota-se o uso potencial de aves como biorreatores para produção de proteínas de interesse para saúde animal e humana.

Na área de manejo destaca-se o crescimento da área de robótica aplicada ao manejo de aves, como o pastoreio de pintinhos, e à melhoria de processos. Em relação aos aviários, o uso de plasticultura (aviários versáteis, transportáveis e de baixo custo), sistemas modulares para lotes menores, visando a alimentação individualizada, construção de aviários biosseguros e autossustentáveis, com uso de computadores para monitoramento e avaliação em tempo real das aves tem sido apontado como uma forte tendência no setor.

A automação do processo produtivo de criação de aves, com uso de fontes alternativas para a manutenção da ambiência do aviário e adaptação de tecnologias na área de abate e processamento, como tecnologias/automação para apanha de aves, serão fatores importantes na produção de aves.

Outra tendência identificada é o uso de biotecnologia e implantação de novos processos visando a qualidade dos alimentos, como ferramentas de análise em tempo real dos alimentos.

 

A área de nutrição terá seus esforços voltados para a nutrigenômica, que é o impacto de nutrientes na expressão gênica que permite conhecer o mecanismo de ação das substâncias biologicamente ativas nos alimentos e seus efeitos para a saúde humana, fornecendo meios para prevenir e tratar doenças por meio da alimentação.

Também haverá a o aumento do uso de enzimas exógenas, principalmente as fitases, que já são amplamente utilizadas em rações de monogástricos, mas que ainda apresentam grande potencial de mercado. Percebe-se ainda tendência de usar a nutrição para controlar a expressão gênica, maximizando a produção e reduzindo os custos de produção.

A nutrição in-ovo, com intervenção e modulação ainda na fase embrionária, também tem sido apontada como um campo promissor em pesquisas, assim como a imunonutriçao e a nutrição de reprodutores, utilizando-se de mensurações seminais.

 

Em decorrência da crescente pressão dos consumidores sobre o bem-estar animal, essa é uma área que tem apresentado forte tendência de crescimento. Na produção de aves destaca-se ações que visem a coleta de sêmen, preservando o bem-estar das aves e técnicas voltadas para a postura em sistemas cage-free.

Outra tendência observada nessa área é o banimento do uso de antibióticos na produção animal e a intensificação da busca de produtos substitutivos com uso de biotecnologia e recursos de origem vegetal.

 

No melhoramento genético de frangos a tendência é para o desenvolvimento de genótipos mais adaptados às condições de ambiência disponíveis, com maior resistência genética às anomalias e distúrbios esqueléticos e de conformação (resistência, neurológica, circulatória, óssea e muscular), ganho em peso e em eficiência alimentar, ganho em rendimento e qualidade de carne, ganho em reprodução e eclodibilidade.

Essas melhorias deverão ser facilitadas com o uso crescente da seleção genômica e de outras ferramentas auxiliares do ponto de vista estatístico, de manejo, de alimentação, de controle de doenças. A exemplo do que existe na França e outros países, haverá uma tendência de diversificação do material genético para produtos diferenciados.

Atualmente já existem genótipos específicos para produção de frangos coloniais/orgânicos e para frangos tipo industrial.

 

No melhoramento genético de linhas puras de poedeiras a tendência é para o desenvolvimento de genótipos com maior persistência de postura e consequentemente com ciclo produtivo mais longo tornando possível a produção de 500 ovos por ciclo e não mais os 337 do ciclo atual, eliminando-se a necessidade de muda forçada para obter um segundo ciclo de postura.

Existem também tendências na eficiência alimentar, qualidade da casca e da qualidade interna dos ovos e no comportamento das aves. As tecnologias de seleção genômica devem favorecer ganhos genéticos em características difíceis de medição, entre elas resistência genética às doenças.

Outras ferramentas auxiliares do ponto de vista estatístico, de manejo, de alimentação, de controle de doenças também apresentam o potencial de auxiliar nas avaliações dos indivíduos para a seleção. Existe preferência por ovos de cores branca e castanho e por sistemas alternativos de produção de ovos, o que implica no desenvolvimento de genótipos especiais para esses sistemas.

 

A crescente demanda por sistemas de produção de aves mais sustentáveis se materializará através de normativas ambientais mais rigorosas e baseadas em critérios técnicos validados pela pesquisa agropecuária, contribuindo para a maior adoção de tecnologias de gestão da água e de tratamento e reciclagem dos resíduos gerados por estas atividades: dejetos e camas, carcaças de animais mortos, resíduos de frigorífico, entre outros.

A expansão da avicultura no Brasil também demandará maior integração destas cadeias com outros sistemas de produção agropecuária e agroindustrial através do aproveitamento dos resíduos da produção animal como insumos (fertilizantes) para a produção de grãos, forragem e biomassa (integração lavoura-pecuária-floresta) ou para a geração de co-produtos com maior valor agregado, tais como fertilizantes organominerais, energia e biocombustíveis, entre outros.

Ainda, será crescente a adoção da informática, sensoriamento remoto e da tecnologia da informação para a automação de equipamentos, práticas e processos empregados na gestão ambiental da atividade. O maior nível tecnológico dessa cadeia terá relevante contribuição para a rastreabilidade e mitigação dos impactos ambientais associados a produção intensiva, gerando ainda indicadores para futuros programas de pagamento por serviços ambientais que valorizem sistemas de produção mais eficientes e ambientalmente sustentáveis.