Tendências em suinocultura

A suinocultura é uma atividade dinâmica. Novas tecnologias e ferramentas de gestão surgem constantemente e em intervalos de tempo cada vez menores. Por outro lado as crescentes exigências dos consumidores com o bem-estar animal e a sustentabilidade, aliadas a escassez de mão de obra, tem se tornado o grande desafio dos suinocultores.

Antever e acompanhar as tendências que influenciam a produção de suínos tem sido vital para os elos que compõe a cadeia produtiva de suínos brasileira.

 

Uma tendência fortemente observada na área de sanidade de suínos é a uma maior atenção na produção de alimentos seguros. Uma das formas de buscar esse objetivo é a redução/eliminação do uso preventivo de antimicrobianos para prevenção de enfermidades e a substituição desses por probióticos, fitoterápicos, extratos herbais e ácidos. Nessa linha, observa-se ainda a ampliação do uso de vacinas polivalentes e de uso massal, via oral e via respiratória para leitões.

Observa-se também o aumento da frequência das doenças emergentes e reemergentes, tornando necessário o desenvolvimento de kits de diagnóstico rápido polivalentes para doenças de rebanho a serem usados no campo e a implantação de melhorias na biosseguridade para produção de suínos. Ainda nessa linha, haverá um aumento do uso de ferramentas moleculares para melhor definição de estratégias de controle de enfermidades e da genômica na seleção de animais com marcadores genéticos de resistência a doenças.

Como forma de assegurar o status sanitário do rebanho será necessário implantar ou dar continuidade aos programas oficiais para erradicação e monitoria das doenças economicamente relevantes ou zoonóticas.

 

O grande enfoque na área de nutrição de suínos será o conhecimento e manipulação do microbismo intestinal através do emprego de alimentos de alta digestibilidade, com o uso amplo de enzimas e moduladores de flora intestinal. Desta forma, a saúde intestinal e a redução de doenças serão objeto de estudo, especialmente em um futuro onde se vislumbra a eliminação do uso de antibióticos promotores de crescimento e de uso preventivo.

O uso de enzimas será incrementado pelos avanços em biotecnologia, possibilitando a melhor digestibilidade de todos os ingredientes energéticos e proteicos, incluindo o milho e farelo de soja, mas também aqueles de qualidade inferior. Neste ponto, acrescenta-se a perspectiva de uso de ingredientes não convencionais como as algas e insetos, os quais podem ser fontes de alta concentração de aminoácidos e produzidos em larga escala sem competir com áreas de produção de grãos.

O uso de moduladores intestinais como os probióticos e prebióticos continuará em alta nos próximos anos também, assim como a aplicação da nutrigenômica como ferramenta para melhor expressar o potencial de ação das substâncias biologicamente ativas nos alimentos e seus efeitos sobre a saúde dos animais.

Percebe-se que a nutrição como ferramenta para redução da excreção de nutrientes com potencial poluidor do ambiente continuará a ter importância, embora muito mais na adequação dos sistemas de produção frente aos aspectos legais do que na geração de conhecimento, propriamente dita.

A alimentação líquida para suínos  se mostra como uma forte tendência de automação de alimentação de animais. Suas principais vantagens são: a maior eficiência na utilização dos alimentos, a redução do uso de mão de obra e redução no desperdício de alimento. Existem outras vantagens como a possibilidade do uso de ingredientes líquidos, como subprodutos da indústria de leite e cervejaria.  Em vários sistemas de produção no Brasil, a alimentação líquida é baseada no uso de ração seca (milho e farelo de soja) misturada com água, obtendo-se excelentes resultados. O maior entrave para adoção dessa tecnologia é o custo de investimento. No Brasil, já existem empresas que atuam no mercado nacional, oferecendo  equipamentos de excelente qualidade.

 

Percebe-se uma tendência da sociedade brasileira e dos mercados importadores de produtos de origem animal em demandar dos governos padrões mínimos de bem-estar animal nas cadeias produtivas. Para atender essa exigência, novos métodos não invasivos para colheita de materiais para diagnóstico, novos sistemas de atordoamento de suínos e sistemas de eutanásia nas granjas deverão ser desenvolvidos e adotados.

Também deverão ser feitas melhorias nos sistemas de alojamento de matrizes, com automação dos sistemas de produção em todas as fases da produção, visando formas de manejo que evitem a dor desnecessária nos suínos. Nesse novo contexto da produção voltada para o bem-estar animal, haverá necessidade de qualificar e treinar a mão de obra nas granjas, tanto na fase de produção quanto no manejo pré-abate, buscando a redução de perdas.

 

A longo prazo, continuará a busca de animais geneticamente melhorados, visando principalmente a redução da gordura, a melhoria da eficiência alimentar e o favorecimento do crescimento do tecido magro para maximizar o desempenho dos suínos em terminação e na qualidade da carcaça.

A seleção genômica passará a ser incorporada nos programas de melhoramento, principalmente para os genes envolvidos na qualidade da carne, características reprodutivas, e há perspectivas de sucesso e na identificação de genes resistentes às doenças. Linhas puras com menos odor suíno já estão em desenvolvimento e visam eliminar a necessidade de castração dos machos, favorecendo o bem estar animal e a qualidade da carne. Marcadores genéticos, a identificação de QTL e pesquisas com o genoma do suíno contribuirão decisivamente para agregar aos programas de melhoramento genético novas ferramentas que permitirão o desenvolvimento de novos produtos alinhados com as demandas do mercado consumidor.

Existe um mercado diferenciado entre Europa, América do Norte e Ásia para diferentes qualidades da carne suína. Por exemplo na Península Ibérica existe uma valorização por raças ou cruzamentos com raças locais. Da mesma forma na Ásia, valoriza-se a carne mais marmorizada, que é diferente da carne industrial produzida no Brasil. Nos Estados Unidos existem dois tipos de carne: tipo industrial (cruzas com Hampshire) e tipo gourmet (cruzas com Duroc e Berkshire). Essa tendência de diversificação poderá também acontecer no Brasil.

 

Na área de reprodução animal, a Inseminação Artificial de Tempo Fixo (IATF) - em que a inseminação é feita antes da ovulação - tem se mostrado uma tendência mundial, assim como a mensuração seminal. A nutrição de reprodutores, com objetivo de melhorar qualidade do sêmen, também será um tema de interesse da pesquisa nos próximos anos.

 

A crescente demanda por sistemas de produção de suínos mais sustentáveis ocorrerá por meio da criação de normativas ambientais mais rigorosas, baseadas em critérios técnicos validados pela pesquisa agropecuária. Assim, haverá necessidade de adotar tecnologias de gestão da água e de tratamento e reciclagem dos resíduos gerados por estas atividades: dejetos e camas, carcaças de animais mortos, resíduos de frigorífico, entre outros.

A expansão da suinocultura no Brasil também demandará maior integração dessa cadeia com outros sistemas de produção agropecuária e agroindustrial através do aproveitamento dos resíduos da produção animal como insumos (fertilizantes) para a produção de grãos, forragem e biomassa (integração lavoura-pecuária-floresta) ou para a geração de co-produtos com maior valor agregado, tais como fertilizantes organominerais, energia e biocombustíveis, entre outros. Ainda, será crescente a adoção da informática, sensoriamento remoto e da tecnologia da informação para a automação de equipamentos, práticas e processos empregados na gestão ambiental da suinocultura e avicultura.

As preocupações com o aumento global da temperatura, resultará na intensificação da busca práticas de mitigação da emissão de gases de efeito estufa (GEE) podem trazer benefícios econômicos à suinocultura, como no caso do aproveitamento energético do metano e a redução da emissão de óxido nitroso com aumento do potencial fertilizante deste resíduo. Neste contexto, a pesquisa deverá fornecer subsídios para tornar a atividade menos impactante.

O maior nível tecnológico da cadeia terá relevante contribuição para a rastreabilidade e mitigação dos impactos ambientais associados a produção intensiva de suínos e aves, gerando ainda indicadores para futuros programas de pagamento por serviços ambientais que valorizem sistemas de produção mais eficientes e ambientalmente sustentáveis.