Melhoramento preventivo: o Brasil no caminho da
pré-competitividade agrícola

Há cerca de dois anos, a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária criou o Programa Nacional de Melhoramento Genético Preventivo (AgroPreventivo). Um passo determinante rumo à pré-competitividade da agricultura brasileira e uma iniciativa importante no fortalecimento da pesquisa pública, já que ações preventivas são inerentes ao escopo de empresas públicas e estão totalmente de acordo com a missão da Empresa, como instituição promotora de ciência e tecnologia no país.

Por isso, diferente de outros programas de pesquisa conduzidos pela Embrapa, esse é perene, para sempre, e é desenvolvido a partir de parcerias com outras instituições de pesquisa públicas de pesquisa do Brasil e do exterior e também com o setor privado.

O objetivo é simples de compreender, mas não tão simples de executar. Mais do que simplesmente prevenir a entrada de pragas agrícolas no Brasil, o AgroPreventivo pretende municiar os produtores rurais com estoques genéticos de variedades resistentes às pragas agrícolas de importância quarentenária que ainda não ocorrem no país e que se entrarem podem causar severos danos à agricultura e à economia nacionais.

Apesar das medidas de vigilância agropecuária em vigor no país, o risco de entrada de pragas aumentou consideravelmente nos últimos 30 anos, especialmente em decorrência do crescimento no trânsito de pessoas, veículos e produtos.

Infelizmente, exemplos não faltam para ilustrar os prejuízos causados pela entrada de pragas agrícolas no Brasil. Na década de 80, o bicudo do algodoeiro devastou as lavouras de algodão da região nordeste, levando dezenas de produtores à falência e fazendo com que o país passasse da condição de exportados para importador de algodão.

Nos anos 2.000, duas pragas introduzidas nas lavouras nacionais ganharam espaço na mídia de todo o país pelos prejuízos de bilhões de dólares que causaram à economia brasileira: a ferrugem da soja, no início da década, e, em 2013, a lagarta Helicoverpa armigera.

Sendo que esta última ainda aterroriza os produtores brasileiros com prejuízos superiores a US$ 10 bilhões em apenas um ano. Não se sabe ao certo de onde ela foi introduzida. O fato é que foi identificada pela primeira vez na Bahia e, rapidamente, se alastrou para outras regiões produtivas brasileiras, devastando lavouras de soja, algodão, hortaliças, entre outras.

Assim como essas duas pragas, existem hoje, pelo menos, 489 organismos quarentenários de alta periculosidade que podem entrar no Brasil a qualquer momento. Algumas estão mais próximas, em países vizinhos ao Brasil na América Latina. Outras estão em regiões mais distantes, como África e Ásia.

Mas a distância nesse caso não é um fator impeditivo ou mesmo atenuante para evitar o ingresso das pragas no país. O comércio internacional e o turismo intensos configuram entre as piores ameaças. Mas, a propagação pelo ar e por outras formas de contaminação é perfeitamente possível, visto que estamos lidando com organismos minúsculos, como insetos, ou mesmo, invisíveis a olho nu, como é o caso de bactérias, fungos e vírus, entre outros microrganismos.

AgroPreventivo começa com quatro culturas e cinco pragas quarentenárias

O Programa Nacional de Melhoramento Genético Preventivo, coordenado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, uma das 46 unidades da Embrapa localizada em Brasília, DF, elencou quatro culturas agrícolas para começar as suas atividades de melhoramento genético preventivo: soja, arroz, feijão e videira.

Relacionadas a essas culturas, foram definidas cinco pragas quarentenárias: Xanthomonasoryzaepv.oryzae (bactéria que causa doença em arroz); Pseudomonassyringaepv. Phaseolicola (bactéria que ataca feijão); Guignardiabidwelli (fungo que atua como praga em videira); Phomaglycinicola (fungo que ataca soja) e Burkholderiaglumae (bactéria-praga de feijão). Veja mais detalhes sobre essas pragas no box abaixo.

Os critérios para definição das pragas que estão na mira do programa da Embrapa são vários, como explica o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Márcio Elias Ferreira, coordenador da iniciativa. A proximidade, as formas de dispersão, a ocorrência em países com os quais o Brasil mantém acordos de comércio internacional e intercâmbio de material genético, e o potencial de danos das pragas, são fatores relevantes para que sejam incorporadas ao Programa, entre outras.

Além disso, é levado em consideração o material genético que a Embrapa mantém em seus bancos de germoplasma. Esse é o primeiro passo para o desenvolvimento do AgroPreventivo.

Depois de elencadas as pragas, os pesquisadores vão em busca de genes de resistência nos bancos genéticos da Embrapa e das instituições parceiras no Brasil e no exterior, como explica Ferreira. Por isso, a cooperação é fundamental.

O objetivo é identificar os genes e transferi-los para as variedades comerciais de arroz, feijão, soja e videira, oferecendo aos produtores brasileiros um estoque genético de plantas resistentes a essas pragas. Assim quando e se elas ingressarem no país, eles estarão preparados para enfrentá-las com variedades não suscetíveis aos seus ataques.

Trata-se de uma atividade estratégica e permanente voltada à minimização de prejuízos causados por pragas quarentenárias à agricultura brasileira, que envolve: estratégia, pré-competitividade, multidisciplinaridade, multi-institucionalidade, parceria público-privada e cooperação internacional.

Variedades resistentes à bactéria de arroz serão testadas no Panamá

Um dos resultados concretos do Programa até o momento é a obtenção de variedades resistentes à bactéria Xanthomonasoryzaepv. Oryzae(Xoo), bactéria que ataca lavouras de arroz. Pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e da Embrapa Arroz e Feijão identificaram genes de resistência no banco genético de arroz mantido pela Unidade em Goiânia e já desenvolveram, por técnicas de melhoramento genético tradicionais, variedades resistentes a essa bactéria.

Essas variedades serão testadas em junho de 2014 em plantas contaminadas no Panamá, onde ocorre a doença, em parceria com o IDIAP – Instituto de Investgación Agropecuaria de Panamá.

A Xoo é uma das piores pragas de arroz no mundo e pode causar danos de 20 a 30% nas lavouras. Mas, se a infecção ocorrer logo após o plantio em arroz irrigado, os danos podem atingir 60 a 75% da produção. Além disso, esse patógeno afeta a qualidade do grão, reduzindo o valor do que sobra da produção.

Vale lembrar também que a praga já pode ser encontrada em países vizinhos ao Brasil, como Venezuela, Colômbia e Equador, o que sem dúvida, aumenta o risco de seu ingresso no país.

Por isso, o melhoramento preventivo requer a formação de acordos técnico-científicos com instituições de pesquisa dos países onde as pragas-alvo estão presentes para que as linhagens desenvolvidas pelo Programa brasileiro possam ser testadas.

Com isso, o Programa beneficia também o setor agrícola dos países parceiros. Entre os benefícios, destacam-se:

  • Ampliação da discussão estratégica na área agrícola entre países produtores de alimentos;
  • Esforço mútuo no emprego de tecnologia avançada em apoio a programas de melhoramento;
  • Enriquecimento de coleções genéticas a partir da intensificação do intercâmbio de acessos, em especial de estoques genéticos de interesse para a agricultura;
  • Esforço conjunto de pesquisa sobre interações entre pragas e hospedeiros para os organismos selecionados pelo Programa de Melhoramento Preventivo;
  • Ampliação de parcerias entre instituições púbicas e privadas do Brasil e do exterior;
  • Formação de estoques genéticos
  • Aumento da percepção pública e do mercado sobre a atuação estratégica de instituições governamentais na área agrícola.

O objetivo do Programa, como afirma Ferreira, é desenvolver um conjunto de linhagens com amplo espectro de resistência em variedades de arroz irrigado e de sequeiro.

Os custos do AgroPreventivo são baixos, especialmente quando comparados com os prejuízos causados pelas pragas, depois que ingressam no país, na casa de bilhões de dólares. Basicamente, englobam somente os salários dos pesquisadores da Embrapa envolvidos em sua execução.

Além disso, o Programa é capaz de fomentar parcerias entre instituições públicas e privadas em que todos se beneficiam. Os estoques genéticos resultantes das suas ações são de livre acesso às instituições que participam e apoiam o seu desenvolvimento.

Na prática, o AgroPreventivo funciona da seguinte maneira:

  1. Busca de genes de resistência às pragas quarentenárias nos bancos genéticos da Embrapa e de instituições parceiras;
  2. Identificação dessas fontes de resistência genética;
  3. Cruzamento com linhagens-elite no Programa de Melhoramento Genético;
  4. Obtenção de novas variedades agrícolas;
  5. Seleção de variedades resistentes através de análises de DNA;
  6. Desenvolvimento de estoques genéticos;
  7. Realização de testes de validação dos estoques genéticos em países de ocorrência das pragas quarentenárias e
  8. Disponibilização dos estoques genéticos para as instituições participantes do Programa.

Praga da soja também está na mira do AgroPreventivo

Outro resultado do Programa AgroPreventivo que já está em fase adiantada de execução envolve uma triangulação técnica entre Brasil, Estados Unidos e Angola para desenvolvimento de variedades resistentes ao fungo Phomaglycinicola, causador de uma doença popularmente conhecida como mancha vermelha da folha de soja (redleafblotch).

Já está sendo formada uma coleção nuclear de variedades de soja resistentes a essa praga e, em breve, o pesquisador Márcio Elias Ferreira vai a Angola testá-las para confirmar a resistência a esse patógeno. A grosso modo, coleções nucleares são aquelas que possuem o máximo possível de variabilidade genética com o mínimo possível de amostras.

Pragas quarentenárias que estão na mira da Embrapa

Saiba mais sobre as pragas quarentenárias elencadas pelo Programa Nacional de Melhoramento Genético Preventivo:

  1. Xanthomonasoryzaepv.oryzae – Bactéria responsável por causar uma doença popularmente conhecida como crestamento ou mancha bacteriana do arroz. Os danos são de 20 a 30%, mas se a infecção ocorrer logo após o plantio de arroz irrigado, pode chegar a 75% da produção. É encontrada em vários países da América (México, EUA, Costa Rica, El Salvador, Nicarágua, Honduras, Panamá, Bolívia, Colômbia, Equador e Venezuela), África, Ásia, Europa e Oceania.
  2. Phomaglycinicola – Fungo causador da doença conhecida como mancha vermelha da folha de soja (redleafblotch). Os danos causados por essa praga são muito significativos nos países africanos onde é encontrada, acima de 50% da produção. A doença afeta também a qualidade do grão. Por isso, sua entrada em países que são grandes produtores de soja pode ser devastadora, com potencial de desestabilizar a cadeia produtiva de soja. Este fungo só ocorre na África.
  3. Burkholderiaglumae - Bactéria causadora da doença conhecida como Podridão do grão do arroz (rice grainrof) ou murcha bacteriana da panícula de arroz (rice bacterialpanicleblight). Causa perdas significativas na produção, contribuindo para a redução do peso dos grãos e diminuição da produtividade, que pode ser de 75¨% em lavouras infectadas. Ocorre na América do Sul (Colômbia e Venezuela), América Central, América do Norte, Ásia e Oceania.
  4. Pseudômonas syringaepv. Phaseolicola – Bactéria causadora da doença popularmente conhecida como crestamento bacteriano aureolado do feijoeiro (halo blightofbeans). Possui alto potencial destrutivo, diminuindo a capacidade produtiva do feijoeiro em mais de 50%, afetando gravemente a qualidade dos grãos. Sua proliferação é acentuada em lavouras irrigadas de feijão, que têm crescido significativamente no Brasil. É encontrada na África, América do Sul (Chile, Colômbia, Peru, Suriname e Venezuela), América Cebtral, América do Norte. Europa, Ásia e Oceania.
  5. Guignardiabidwelli – Fungo responsável pela doença conhecida como podridão negra da videira (blackrot). Pode causar perda total da colheita de uvas porque os frutos contaminados têm seu sabor e qualidade alterados. Ocorre na América do Norte e Europa.