Solos e vida – uma relação direta e abrangente

Indispensável à vida na Terra, o solo (pedosfera) é um elemento que influencia e é influenciado pelos outros compartimentos do sistema terrestre, os organismos (biosfera), a água (hidrosfera), as rochas e sedimentos (litosfera) e o ar (atmosfera), interagindo com eles em todos os processos que determinam a qualidade de vida no planeta. A degradação e o manejo inadequado dos solos têm provocado desequilíbrio em fluxos hídricos, na emissão de gases de efeito estufa e na atenuação dos efeitos de poluentes, influenciando diretamente a regulação da qualidade da água e do ar.  

Não é à toa que existe consenso na Academia sobre a necessidade de avanços técnico-científicos para proteção dos solos, na busca pelo equilíbrio de suas várias funções, tais como produção de alimentos, fibras e combustíveis; armazenamento de nutrientes e carbono; filtração, purificação e estoque de água; oxidação e redução de poluentes orgânicos e inorgânicos; e armazenamento e degradação de lixo.

Uma importante interferência dos solos veio à tona com a recente crise hídrica brasileira, que avançou para além das fronteiras do Sertão Nordestino e deixou claro que a falta d’água vai muito além da escassez de chuvas, e está intimamente ligada ao manejo do solo. Problemas como erosão, compactação e impermeabilização, além de reduzirem a quantidade de nutrientes da terra, prejudicam a infiltração e filtragem da água para a recarga de rios e aquíferos. Em contraponto à seca, as inundações também estão ligadas ao solo. Problema comum em muitas cidades brasileiras, o fenômeno ocorre porque a água não tem onde se infiltrar, devido especialmente à cobertura dos solos com asfalto, escoando para onde há menor energia e acumulando-se em locais mais baixos.

O solo também está diretamente relacionado a questões climáticas. A pesquisa agropecuária está empenhada em desenvolver soluções tecnológicas que permitam que o solo não se degrade do ponto de vista da capacidade de produção e que emita o menos possível os chamados gases de efeito estufa (GEE), processo que é agravado pelo uso inadequado de fertilizantes nitrogenados. Nesse sentido, o carbono existente no solo ganha uma atenção especial. Além de evitar as emissões de GEE, a pesquisa busca maneiras de reduzir esses gases na atmosfera por meio da atividade agropecuária, processo conhecido como sequestro de carbono, sendo o solo um dos principais reservatórios de carbono do planeta.

Programa ABC, do Governo Federal, que visa à redução de emissões de GEE na agropecuária por meio da adoção de soluções tecnológicas sustentáveis, foi um avanço para a criação das bases do conhecimento nacional sobre o tema. Por meio do levantamento e monitoramento de áreas com diversos níveis de manejo, será possível saber com mais exatidão o quanto de carbono está sendo sequestrado ou emitido para a atmosfera. O que já se sabe é que o sistema de plantio direto contribui sensivelmente para o sequestro de carbono, assim como o reflorestamento em áreas sem vegetação.

 

Histórico da classificação de solos no Brasil

O conhecimento aprofundado sobre os solos e suas funções é fundamental para o seu correto manejo e mapeamento de suas aptidões. O conhecimento e identificação de horizontes e camadas componentes do solo e o aprimoramento dos critérios diagnósticos empregados na sua identificação são resultado da experiência acumulada ao longo dos anos em vários países. A partir do conceito estabelecido pelo geógrafo russo Vasily Dokuchaev, foi possível classificar o solo de forma individualizada.

No Brasil, a classificação de solos teve início no final do século XIX. Mas os primeiros levantamentos de solo no território nacional realizados de forma sistemática foram iniciados em 1947, com a criação da Comissão de Solos do Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas (SNPA) do Ministério da Agricultura. Prosseguiram nas décadas de 1950 e 1960, respectivamente, com o Programa de Levantamento de Reconhecimento dos Solos Brasileiros, apresentado pela Comissão, e com a fundação, em 1962, da Divisão de Pedologia e Fertilidade do Solo, vinculada ao Departamento Nacional de Pesquisa Agropecuária (DNPEA). Em 1969, foi elaborado o Manual de Métodos de Análise de Solos, de autoria de Leandro Vettori, responsável pelo início da padronização das análises de solos no Brasil, o qual já se encontra na 3ª edição, revista e ampliada, e é utilizado em laboratórios pelo Brasil até hoje.

Com a fundação da Embrapa, em 1973, a Divisão de Pedologia e Fertilidade do Solo foi transformada, dois anos depois, em Serviço Nacional de Levantamento e Conservação de Solos (SNLCS), atual Embrapa Solos (RJ), dando continuidade aos trabalhos de reconhecimento iniciados em 1947. As informações geradas pelo SNLCS foram a base técnica para várias aplicações, a exemplo do desbravamento do Cerrado brasileiro para a produção agrícola e dos Zoneamentos Ecológico-Econômicos (ZEE) em diversas regiões do país. O acúmulo desse conhecimento, desenvolvido em parceria com universidades e com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acabou por gerar, ainda nos anos 1970, o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos, que em 1997 deu origem a um livro que chega esse ano à sua 5ª edição - baixe o e-book aqui.

 

A conquista do Cerrado

O Cerrado brasileiro é atualmente uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo e referência internacional em produtividade. Mas nem sempre foi assim. Para o alcance dos recordes de produção de alimentos, foi necessário corrigir os solos da região, naturalmente ácidos e pobres em nutrientes.

Historicamente, a agricultura no Brasil sempre foi desenvolvida em regiões de solos férteis, cultivados até a exaustão e depois abandonados. Por conta disso, a região do Cerrado era vista como um local impróprio para produzir alimentos. Mas, em meados da década de 1970, com a decisão do governo de expandir a agricultura para essa região, foi necessário investir especialmente em pesquisa para tentar mudar essa realidade.

Nesse contexto, foi criada, em 1975, a Embrapa Cerrados (DF), que liderou trabalhos de pesquisa relacionados à determinação de índices que avaliam a qualidade dos solos da região, tanto com relação à química quanto à biologia dos solos − especialmente ligada à matéria orgânica. Com experimentação intensiva de campo, ao longo dos últimos 40 anos foram gerados critérios para interpretar a análise de solo e, com base nisso, recomendar, por exemplo, fertilizantes e corretivos em doses adequadas, o que propiciou o cultivo no Cerrado com boas produtividades e com retorno econômico. Ressalta-se ainda o papel fundamental da descoberta da fixação biológica de nitrogênio, advinda dos trabalhos pioneiros da pesquisadora Johanna Döbereiner, iniciadas no então Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícola, atualmente Embrapa Agrobiologia (RJ), que permitiu ao Brasil tornar-se o segundo maior produtor mundial de soja, esta proveniente em sua maioria do Cerrado.

Os desafios da pesquisa agropecuária para esta região, atualmente, estão relacionados ao aperfeiçoamento de sistemas conservacionistas, como o sistema de plantio direto e o desenvolvimento dos sistemas integrados de produção.

 

Megaprojeto vai mapear solo brasileiro de Norte a Sul

Ainda há carência de muitos dados sobre os solos do Brasil, um país com proporções continentais. O conhecimento aprofundado dos solos tem grande importância para que uma nação garanta a segurança alimentar da população e o seu desenvolvimento em bases sustentáveis. Atualmente, o País dispõe apenas de levantamentos de solo de caráter geral, com mapas de pequena escala, sendo que menos de 5% do território nacional conta com mapas de solos em escala 1:100.000 ou mais detalhada. Bem diferente da realidade de boa parte dos países desenvolvidos, como os EUA, por exemplo, cujo território é quase todo coberto por mapas de solos em escalas entre 1:20.000 e 1:40.000.

Para solucionar esse problema de falta de conhecimento adequado de boa parte dos solos de seu território, o Brasil acabou de estruturar o Programa Nacional de Solos do Brasil (PronaSolos), o maior empreendimento técnico-científico brasileiro da área de solos. A missão é mapear os solos de 8,2 milhões de km² do território nacional até 2048, em escalas que variam de 1:25.000 a 1:100.000. Pesquisadores e técnicos de dezenas de instituições parceiras estarão dedicados à investigação, documentação, inventário e interpretação de dados dos solos brasileiros. Um investimento na ordem de R$ 4 bilhões em 30 anos, com financiamento público e privado. E um enorme retorno para a sociedade, que pode chegar a 185 reais para cada real investido no PronaSolos. 

O programa, que envolve dezenas de instituições parceiras, reunirá atividades de investigação, documentação, inventário e interpretação de dados de solos brasileiros para gestão desse recurso e sua conservação. São informações fundamentais para inúmeras áreas, que vão de mudanças climáticas e recursos hídricos a seguro rural e telecomunicações, e que permitirão o ordenamento territorial no Brasil, conjugando o desenvolvimento econômico no campo com a conservação dos recursos naturais e o gerenciamento dos recursos hídricos.

As informações geradas serão sistematizadas em uma única base de dados disponível para a sociedade, e subsidiarão políticas públicas nos meios rural e urbano, em nível nacional, estadual e municipal. 

Visite a página do PronaSolos e saiba mais sobre o programa.