04/04/16 |   Gestão ambiental e territorial

Simulação da dispersão

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O mapeamento de locais de risco, incluindo o uso de simulação numérica, possibilita estimar prováveis locais sujeitos ao ataque de pragas exóticas quarentenárias e seu desenvolvimento esperado nessas áreas.

A matemática Maria Conceição Pessoa, pesquisadora do Laboratório de Quarentena Costa Lima (LQC), da Embrapa Meio Ambiente, aponta que são considerados, principalmente, os meios de dispersão da praga ou vetor; a localização das principais lavouras passíveis de serem afetadas e seus parâmetros climáticos; e as fases de desenvolvimento do inseto.

"Quando a Helicoverpa armigera foi identificada no Brasil, o LQC já tinha informações sobre seus principais bioagentes de controle, os cultivos, os hospedeiros e os tempos de desenvolvimento (da praga) em laboratório no exterior," conta Pessoa. Informações biológicas do inseto indicaram que ele poderia utilizar-se de massas de ar para se dispersar pelo território brasileiro.

Com esses dados, a pesquisa conseguiu prever que a praga chegaria às regiões norte e sudoeste do estado de São Paulo. "Iniciamos pela recuperação de dados climáticos de São Paulo dos últimos 12 anos e levantamos fatores bióticos que poderiam colaborar para o desenvolvimento e o estabelecimento do inseto nessas regiões", conta a pesquisadora. Todas essas avaliações são importantes para elaborar métodos de controle à praga e conter sua dispersão.

Um dos casos mais curiosos é o do psilídeo-de-concha (Glycaspis brimblecombei), praga florestal que ataca árvores de eucalipto. "A dispersão do inseto ocorre até mesmo pela presença em folhas e galhos de eucalipto lançados pelo vento sobre as lonas de caminhão. Desse modo, focos de infestação da praga ocorreram em eucaliptos plantados ao lado de estradas do País", conta o entomologista Luiz Alexandre Nogueira de Sá, também do LQC da Embrapa Meio Ambiente.

O Laboratório realiza experimentos com os inimigos naturais exóticos das pragas quarentenárias. É preciso testar os efeitos desses agentes de biocontrole nas condições brasileiras, averiguar sua efetividade no combate à praga e verificar possíveis desequilíbrios ambientais que eles possam provocar. Sá ressalta que o LQC é o único laboratório de quarentena credenciado pelo Mapa para trabalhar com essa linha de pesquisa. "Nossas instalações são adequadas e atendem a padrões internacionais de controle e isolamento para a introdução segura de inimigos naturais exóticos no País," explica o especialista.

Os pesquisadores do LQC explicam que os trabalhos realizados com a Embrapa Gestão Territorial são fundamentais para a proposição de ações efetivas de vigilância fitossanitária territorial de pragas quarentenárias. "Não adianta ter uma boa tecnologia para o controle da praga se não soubermos onde ela pode se estabelecer ou se dispersar, e onde se encontram postos de vigilância fitossanitária para promover sua contenção. Por isso, os estudos multidisciplinares com especialistas em gestão territorial e em sistemas de informação geográfica são tão importantes", afirma Nogueira de Sá.

Nossas barreiras - O Brasil faz parte da Convenção Internacional de Proteção de Vegetais com outros 181 países no âmbito da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). O secretário de Defesa Agropecuária, Luis Rangel, explica que o Departamento de Sanidade Vegetal (DSV), ligado ao Mapa, trabalha no que ele chama de tríplice barreira.

A primeira é um sistema de inteligência que monitora informações sobre as pragas quarentenárias e se materializa na Análise de Risco de Pragas. "Com esse sistema, é possível contemplar uma visão sistêmica da informação, conseguimos ter uma dimensão de que risco estamos correndo. É com base nisso que estabelecemos a lista de pragas quarentenárias presentes e ausentes", afirma.

A entrada no País de vegetais, seus produtos e subprodutos é inspecionada e fiscalizada pelo Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional, o Vigiagro. A fiscalização é feita em portos, aeroportos internacionais, postos de fronteira e aduanas especiais. Ao chegar ao Brasil, o material importado é inspecionado por um fiscal agropecuário, que confere a documentação, verifica a permissão de importação, origem e se há pragas de restrição que exijam exame laboratorial.

Em caso positivo, o fiscal recolhe uma amostra, lacra e encaminha para um Laboratório de Diagnóstico Fitossanitário. Durante o período de análise, o importador é impedido de distribuir o material. Um único material pode precisar passar por vários testes de detecção das pragas-alvo, para verificação da presença de sementes de plantas invasoras, insetos, ácaros, nematoides, bactérias, fungos e vírus.

Rangel explica que há uma vigilância específica, quando se sabe do risco de entrada de uma praga, e é estabelecida uma barreira para entrada do material. "Considerando a hipótese de enfrentarmos uma praga que ataca a pera argentina, por exemplo, essa espécie de fruta oriunda desse país específico terá que passar por análise laboratorial provando que está livre da praga. Em alguns casos a entrada é proibida", explica.

A terceira barreira acontece quando é dado o alerta de uma nova praga nas lavouras brasileiras. A primeira providência é a identificação da praga e sua origem. Nem sempre esse processo é simples, devido à carência de taxonomistas no Brasil. Uma vez identificada a praga, são analisados seu comportamento e a extensão do dano causado. "Existem pragas com baixa mobilidade, como os nematoides, e outras com grande mobilidade, como é o caso das moscas. Para cada uma, estabelecemos a emergência e a contingência. Às vezes, são contingências duras, porque dependendo do risco que o País estiver correndo, deve-se, por exemplo, restringir o trânsito de determinados produtos agrícolas dentro de uma região", detalha o secretário.

Há ainda o cuidado com a fiscalização de bagagens de passageiros. Segundo Rangel, uma das pragas mais perigosas para a nossa fruticultura, a mosca-da-carambola, entrou no Brasil vinda do Suriname em frutas trazidas por turistas em suas malas. "A defesa agropecuária é um processo que tem que ser universalizado. A agropecuária é um patrimônio do Brasil e é papel de cada cidadão proteger esse patrimônio", ressalta Rangel. •

Fatores de uma invasão biológica

A Helicoverpa armigera é um caso emblemático das pragas quarentenárias recentemente introduzidas em nossas lavouras, causando prejuízos na faixa de R$ 1,7 bilhão na safra 2012/2013 apenas no estado da Bahia, principalmente em plantações de algodão, milho e soja.

De acordo com a acarologista Denise Navia, organismos levados para além de sua própria área de distribuição natural são referidos como "Espécies Invasoras Exóticas" (EIE). Nesse conceito também está incluída qualquer parte da espécie capaz de sobreviver e se reproduzir, como gametas, sementes, ovos ou propágulos. Nos sistemas agrícolas são chamadas pragas invasoras.

As invasões biológicas são, na verdade, o resultado de estágios sequenciais. Espécies não nativas devem passar por, no mínimo, três etapas antes que possam causar impactos: transporte, estabelecimento e disseminação. Para cumprir cada um desses estágios, é necessário ultrapassar barreiras ecológicas. Por isso, estima-se que apenas entre 5% e 20% de espécies não nativas transportadas tornam-se invasoras.

O conhecimento do processo de invasão, bem como dos fatores que influenciam o sucesso de cada estágio, permite a adoção de medidas que inibam a transição para o próximo, evitando, dessa forma, o sucesso da invasão de espécies não nativas.

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Fernanda Diniz
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

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